

Por José Alberto Romero Blanco, coordenador regional de Fé e Alegria em Roraima
A você, caminhante que segue construindo novos caminhos!
Encontramos diariamente trajetórias marcadas por mudanças e novos rumos. Muitos desses movimentos ultrapassam fronteiras geográficas, culturais e linguísticas, exigindo adaptação, coragem e aprendizado constante. É nesse espaço de partilha que apresento um pouco da minha própria história, atravessada por experiências de migração, diversidade cultural e construção de sentido ao longo do caminho.
Quem já precisou recomeçar alguma vez na vida talvez compreenda parte do que vou compartilhar. Durante minha juventude em Valencia, minha cidade natal, na Venezuela, situada a oeste de Caracas, em uma importante região industrial, convivi com pessoas de diferentes países e culturas. Naquela época, observava os migrantes ao meu redor e percebia neles uma força que eu admirava, mas ainda não compreendia.
Estudei num ambiente diverso: com árabes, italianos, espanhóis, chineses, peruanos, entre outros. Desfrutava e aprendia muito naquele ambiente de diversidade cultural, mas existia uma caraterística comum que observava em todos eles: uma espécie de força, que ficava evidente em sua forma de trabalhar e de seguir em frente mesmo diante das dificuldades.
Minha família era bem simples e, por isso, comecei a trabalhar aos 17 anos. Trabalhava e estudava. Sempre foi assim. Consegui concluir minha primeira graduação em administração aos 21 anos, mas continuei estudando.
Passei por diferentes empregos e sempre percebia, em meus colegas de trabalho estrangeiros, aquela força, que permitia aos migrantes se destacarem independentemente da tarefa ou atividade que desempenhavam.
Assim, por mais de 13 anos, trabalhei em uma grande empresa, construí minha família e prosperei. Continuei estudando até obter o grau de mestre em Gestão de Recursos Humanos, um tema que sempre despertou meu interesse: as pessoas. Mas, um dia, a empresa onde trabalhei por tantos anos acabou falindo. Tive que me reinventar e criei meu primeiro empreendimento: um escritório de consultoria. Por mais de cinco anos, assessorei empresas em projetos de responsabilidade social. Porém, mais uma vez, a situação do país fez com que a maioria das empresas fechasse suas portas. Foi assim que, pouco a pouco, a situação social, política e moral do nosso país se deteriorou a tal ponto que sobreviver se tornou um desafio. Eu já era casado e tinha três filhos. Dois deles ainda eram crianças, e o mais velho era apenas um adolescente.
O que fazer? Eu não queria migrar. Tinha conquistado tanto, e arriscar tudo de uma só vez era uma decisão muito difícil. Confesso que esperei mais de quatro anos para tomar essa decisão. Sair do meu país, deixando para trás a família, os amigos e todas as conquistas econômicas e profissionais, era demais para mim.
A espera teve consequências. Por mais que trabalhasse, não conseguia garantir o sustento da minha família, e sofríamos com falta de remédios tão básicos que você encontra na farmácia da esquina da sua casa, mas que lá já não existiam. Minha família merecia um futuro melhor. Foi nesse momento que senti, pela primeira vez, o que descrevo neste texto como essa força: cinco pessoas, cinco malas e uma viagem de ônibus, porque não tínhamos dinheiro para comprar passagens de avião.
Destino: Brasil. Por quê? Simples: não tínhamos dinheiro para chegar a outro lugar. Os recursos que conseguimos ao vender, por um preço irrisório, a aliança de ouro de casamento da minha sogra falecida eram o único fôlego que nos permitiria cruzar aquela fronteira. Naquele momento, todos os meus diplomas, cursos e anos de experiência pareciam não valer nada. Eu estava entrando em um país com cultura e língua diferentes, sem saber ao certo o que encontraria pela frente.
Graças a Deus, conseguimos entrar. Na minha mente havia muitos medos, porém foi a primeira vez que senti essa força, que me impulsionava a acordar mais cedo, trabalhar mais horas, inclusive nos feriados, economizar cada recurso possível e procurar, com firmeza, cumprir a lei. Eu tinha mudado. Agora era migrante, não mais o mestre com vinte anos de experiência profissional, mas apenas mais um migrante.
Naturalmente, desempenhei várias funções para sustentar minha família naquela época. Entre eles, o que estava mais ao meu alcance: limpador de quintais, uma atividade mais simples que a jardinagem, mas que garantia o valor de uma diária para seguir em frente, um dia de cada vez. Tudo era pelos meus filhos e pela minha esposa. Eu já não era o mais importante: eles eram.
Mas Deus costuma agir de formas misteriosas. Sabia muito pouco sobre as obras da Igreja Católica. Um dia, porém, conheci o sacerdote Ronilson Braga e, por meio dele, a Companhia de Jesus. Esse homem me tratou de uma forma diferente. Em nossa conversa, senti respeito, acolhida e valorização.
Por intermédio dele, também conheci outros sacerdotes que marcaram minha caminhada: Pedro Pereira e Agnaldo Junior. Hoje somos grandes amigos e companheiros de missão. Com o tempo, compreendi que foi Deus, por meio deles, quem me chamou para colocar minha experiência, minha formação e essa força a serviço de outros migrantes, ajudando a consolidar o trabalho de Fé e Alegria em Boa Vista.
Foi assim que passei a atuar em Fé e Alegria, um espaço onde minha trajetória pessoal ganhou novo sentido no serviço aos outros. Ali entendi, na prática, que acolher migrantes ia muito além de um trabalho: era uma parte importante na minha missão de vida. Pouco a pouco, fui colocando minha experiência, minha formação e essa força a serviço da educação popular, que aposta na dignidade humana e na construção de oportunidades para quem mais precisa.
A vida seguiu, com trabalho, estudo e novos aprendizados. Já tenho 52 anos e, às vezes, me canso. Mas a força do migrante continua comigo. Continuei trabalhando em Fé e Alegria, e estudando aqui no Brasil: fiz MBA, diplomados, formações livres, e agora estou estudando inglês. Inclusive até me convidam para escrever artigos como este aqui. E, nesse caminho, a experiência de ser migrante seguiu se transformando em propósito.
Hoje, eu utilizo essa experiência para enfrentar desafios maiores, promover o acolhimento de outras pessoas em minha cidade, valorizar a interculturalidade na Amazônia, construir pontes e tecer redes com pessoas de muitos países.
Não sei o que o futuro me reserva, mas peço a Deus que me permita crescer e aprender sem perder a minha identidade, um dia de cada vez. Dou-me a permissão de ser usado por Ele, de inovar e até de errar. Peço também que os diplomas não inflem demais o meu ego, para que eu não esqueça de onde venho nem para onde vou. Mas peço, especialmente a Ele, que me dê a força necessária para combater o bom combate, completar a carreira e guardar a minha fé.
A experiência da migração, da resiliência e da força de recomeçar faz parte da vida de milhões de pessoas que, todos os dias, atravessam fronteiras visíveis e invisíveis em busca de dignidade, trabalho e esperança. Nesse contexto, o trabalho de Fé e Alegria ganha ainda mais sentido ao atuar na defesa de direitos, na promoção da educação e na construção de caminhos de acolhimento e oportunidade para quem mais precisa. Trata-se de um compromisso com vidas que se reinventam e seguem construindo novos caminhos.
Com fé e gratidão,
Jose Alberto Romero Blanco.
Obra de Promoção Social e Educação Popular da Companhia de Jesus que transforma vidas em 14 estados brasileiros.
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