Memória, ancestralidade e construção de novas narrativas
A historiadora e educadora popular Nélia Nascimento chamou atenção para a importância da memória como instrumento de resistência, formação e transformação social. Atuando no Centro de Estudos e Ação Social (Ceas) e na Articulação Afro Brasil SJ, ela destacou que falar de ancestralidade é também falar de território, pertencimento e das lutas históricas dos povos negros.
Segundo Nélia, uma das tarefas fundamentais da educação é recuperar narrativas que ultrapassem a visão da população negra apenas como vítima da escravidão, valorizando também as histórias de organização, resistência e construção de comunidades. “A gente fala muito da colonização, mas precisa falar também da resistência”, afirmou, ressaltando que a memória é essencial para enfrentar as desigualdades, o racismo e as diferentes formas de opressão ainda presentes na sociedade brasileira.
Durante sua participação, a educadora também destacou o compromisso das obras da Companhia de Jesus com essa agenda. Ela lembrou que o Ceas, que se aproxima de seis décadas de atuação, acompanha historicamente movimentos sociais do campo e da cidade, contribuindo para a preservação de suas memórias e trajetórias de luta. Também mencionou o trabalho desenvolvido pela Articulação Afro Brasil SJ, rede que reúne diversas obras jesuítas, entre elas centros sociais, instituições educativas e o Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados, promovendo reflexões sobre relações étnico-raciais e fortalecendo iniciativas voltadas à equidade racial.
Nélia ressaltou ainda a importância de reconhecer e apoiar experiências concretas que já estão transformando realidades. Como exemplo, citou o próprio trabalho de Fé e Alegria na produção do livro Entre Curvas e Nós: o Sonho de Neydjina e Davu, que amplia a representatividade e oferece novas referências para crianças e jovens. “Se estamos aqui hoje, é porque alguém lutou por esse direito. A memória nos ajuda a olhar para trás para continuar caminhando para a frente”, destacou.
Para ela, preservar memórias não significa apenas registrar o passado, mas fortalecer processos coletivos capazes de inspirar novas gerações. “Precisamos trazer as narrativas literárias, as músicas e as construções que produzimos. É um trabalho coletivo, que envolve educadores, jovens, movimentos sociais e comunidades inteiras”, afirmou.
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