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Bienal do Livro de SP: participação de Fé e Alegria é marcada por reflexões sobre literatura, ancestralidade e educação antirracista

Painel idealizado por Fé e Alegria Brasil em parceria com Edições Loyola abordou temas como representatividade, memória e o papel transformador da literatura na construção de uma sociedade mais justa.

 

Daiene Cavalcanti (Fé e Alegria); Marcos Cajé (escritor de literatura afro-fantástica); Solange Petrosino (curadora do Espaço Educação); Nélia Nascimento (Ceas); e André Lázaro (mediador),

A presença de Fé e Alegria Brasil na 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo foi marcada por um diálogo inspirador sobre literatura, ancestralidade, memória e educação antirracista. Realizado no Espaço Educação, o painel idealizado por Fé e Alegria em parceria com as Edições Loyola reuniu a coordenadora pedagógica de Fé e Alegria Cuiabá e coautora do livro Entre Curvas e Nós: o Sonho de Neydjina e Davu, Daiene Cavalcanti; a educadora popular, historiadora e integrante do Centro de Estudos e Ação Social (Ceas) e da Articulação Afro Brasil SJ, Nélia Nascimento; o escritor de literatura afro-fantástica Marcos Cajé; com mediação de André Lázaro, professor e diretor de Políticas Públicas da Fundação Santillana no Brasil.

 

Reconhecida como um dos maiores eventos literários da América Latina, a Bienal do Livro de São Paulo recebeu este ano 760 mil visitantes, em recorde histórico de público. O evento reúne centenas de expositores, autores, educadores e leitores de todo o país, consolidando-se como um espaço estratégico para a promoção da leitura, da diversidade e do acesso à cultura. Nesse cenário, o debate com participação de Fé e Alegria destacou a importância de ampliar vozes historicamente silenciadas e fortalecer práticas educativas comprometidas com a equidade racial.

Literatura que representa e transforma

 

Durante o encontro, Daiene Cavalcanti compartilhou a experiência desenvolvida nos Centros de Educação Infantil de Fé e Alegria em Cuiabá, onde a valorização das identidades negras faz parte do cotidiano pedagógico. Segundo ela, o livro Entre Curvas e Nós: o Sonho de Neydjina e Davu nasceu da necessidade de oferecer às crianças referências positivas com as quais pudessem se reconhecer.

 

“Há uma ideia de que as crianças pequenas não leem, mas elas leem muitas coisas além dos livros. Leem o mundo, leem as pessoas, observam tudo ao seu redor”, afirmou. Para a educadora, a ausência de representações negras nos materiais pedagógicos, nas ilustrações, nos brinquedos e nos ambientes educativos motivou a construção de uma narrativa que refletisse a realidade das crianças atendidas pela instituição.

 

Daiene destacou que a literatura, por si só, não resolve as desigualdades, mas faz parte de um conjunto de práticas que ajudam a construir ambientes educativos mais inclusivos. “O livro é um complemento de uma estrutura educativa que precisa ser antirracista para que esse protagonismo seja real e não apenas uma representação”, ressaltou.

 

Ao comentar o trabalho desenvolvido por Fé e Alegria, ela explicou que a valorização das culturas afro-brasileiras está presente nas experiências cotidianas das crianças, nas músicas, nos brinquedos, nas brincadeiras e nas histórias compartilhadas. “Quando você constrói um contexto pedagógico baseado na realidade das crianças e das famílias, esse protagonismo aparece de forma muito mais significativa”, afirmou.

Memória, ancestralidade e construção de novas narrativas

 

A historiadora e educadora popular Nélia Nascimento chamou atenção para a importância da memória como instrumento de resistência, formação e transformação social. Atuando no Centro de Estudos e Ação Social (Ceas) e na Articulação Afro Brasil SJ, ela destacou que falar de ancestralidade é também falar de território, pertencimento e das lutas históricas dos povos negros.

 

Segundo Nélia, uma das tarefas fundamentais da educação é recuperar narrativas que ultrapassem a visão da população negra apenas como vítima da escravidão, valorizando também as histórias de organização, resistência e construção de comunidades. “A gente fala muito da colonização, mas precisa falar também da resistência”, afirmou, ressaltando que a memória é essencial para enfrentar as desigualdades, o racismo e as diferentes formas de opressão ainda presentes na sociedade brasileira.

 

Durante sua participação, a educadora também destacou o compromisso das obras da Companhia de Jesus com essa agenda. Ela lembrou que o Ceas, que se aproxima de seis décadas de atuação, acompanha historicamente movimentos sociais do campo e da cidade, contribuindo para a preservação de suas memórias e trajetórias de luta. Também mencionou o trabalho desenvolvido pela Articulação Afro Brasil SJ, rede que reúne diversas obras jesuítas, entre elas centros sociais, instituições educativas e o Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados, promovendo reflexões sobre relações étnico-raciais e fortalecendo iniciativas voltadas à equidade racial.

 

Nélia ressaltou ainda a importância de reconhecer e apoiar experiências concretas que já estão transformando realidades. Como exemplo, citou o próprio trabalho de Fé e Alegria na produção do livro Entre Curvas e Nós: o Sonho de Neydjina e Davu, que amplia a representatividade e oferece novas referências para crianças e jovens. “Se estamos aqui hoje, é porque alguém lutou por esse direito. A memória nos ajuda a olhar para trás para continuar caminhando para a frente”, destacou.

 

Para ela, preservar memórias não significa apenas registrar o passado, mas fortalecer processos coletivos capazes de inspirar novas gerações. “Precisamos trazer as narrativas literárias, as músicas e as construções que produzimos. É um trabalho coletivo, que envolve educadores, jovens, movimentos sociais e comunidades inteiras”, afirmou.

Educação antirracista como compromisso coletivo

 

Ao longo do debate, os participantes reforçaram que a construção de uma educação antirracista depende do envolvimento de toda a sociedade. O escritor Marcos Cajé destacou a necessidade de ampliar a representatividade negra no mercado editorial e de garantir que crianças e adolescentes tenham acesso a narrativas que valorizem suas origens, culturas e potências.

 

A mediação de André Lázaro também trouxe reflexões sobre a importância de reconhecer as contribuições africanas para a formação da sociedade brasileira e de fortalecer políticas educacionais voltadas para as relações étnico-raciais.

 

Encerrando a atividade, a curadora do Espaço Educação, Solange Petrosino, destacou que o objetivo é que, no futuro, debates sobre racismo e representatividade já não sejam necessários porque a diversidade estará plenamente incorporada às práticas educacionais, culturais e editoriais. Enquanto esse cenário não se concretiza, reforçou, é preciso criar espaços de diálogo e reflexão.

Literatura que muda vidas

 

Em uma das falas que resumiram o espírito do encontro, Daiene Cavalcanti destacou o papel da leitura na formação das pessoas e na construção de novas possibilidades de existência. “Literatura salva vidas, muda vidas e transforma vidas”, afirmou.

 

Ao levar esse debate para a Bienal do Livro de São Paulo, Fé e Alegria reafirma seu compromisso com uma educação popular, inclusiva e transformadora, capaz de reconhecer a diversidade presente na sociedade brasileira e contribuir para que crianças, adolescentes, jovens e suas comunidades sejam protagonistas de suas próprias histórias.

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