

Após cinco meses de encontros, diálogos e construção coletiva de conhecimentos, a Fundação Fé e Alegria do Brasil e o Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores (Cepat) realizaram, no dia 19 de junho, o encontro de encerramento do II Ciclo de Formação em Educação Popular. Com o tema Fé e Alegria nas Trilhas da Educação Popular: Fronteiras e Territórios, a atividade reuniu participantes de diferentes centros de Fé e Alegria e de outras obras da Rede de Justiça Socioambiental da Companhia de Jesus, consolidando um percurso marcado pela escuta, reflexão crítica e fortalecimento do compromisso com a transformação social.
Ao longo de cinco encontros formativos realizados entre fevereiro e junho, educadores(as), gestores(as), assessores(as), lideranças comunitárias e profissionais de diferentes áreas aprofundaram debates e reflexões sobre educação popular, ecologia integral, dimensão política da educação, paradigma do cuidado e atuação nos territórios.
Mais do que um espaço de formação, o ciclo se consolidou como um processo de troca de experiências e fortalecimento de uma Rede comprometida com a construção de práticas educativas libertadoras e transformadoras.
Na abertura do encontro, a coordenadora pedagógica Nacional da Fundação Fé e Alegria do Brasil, Fernanda Ariele da Silva, destacou a importância do percurso construído ao longo dos últimos meses e o compromisso assumido pelos participantes durante toda a formação.
“Foi um ciclo rápido, mas muito significativo. Passamos cinco meses nos encontrando e aprendendo juntos. Esperamos ter contribuído para que todos pudessem aprender um pouco mais e para que nós também aprendêssemos mais sobre a Educação Popular”, disse a coordenadora, que ressaltou o esforço coletivo que possibilitou a realização do ciclo, marcado pela participação ativa dos educadores e educadoras das diferentes unidades e obras parceiras.
A acolhida do encontro contou ainda com a participação do diretor-presidente da Fundação Fé e Alegria do Brasil, Pe. Alexandre Raimundo de Souza, SJ, que situou a formação dentro dos desafios atuais da missão educativa e social da instituição.
Para ele, pensar Educação Popular hoje significa fortalecer a cultura do cuidado, do encontro e da atuação em rede: “Já não podemos mais caminhar sozinhos. Avançamos cada vez mais na direção do cuidado das pessoas, da casa comum e da natureza”.
Pe. Alexandre destacou ainda que os territórios não podem ser compreendidos como espaços isolados, mas como lugares de encontro, articulação e construção coletiva: “A cultura do cuidado nos conduz à cultura do encontro.”
Sua reflexão dialogou diretamente com os debates realizados ao longo do ciclo, especialmente aqueles relacionados à ecologia integral, à justiça socioambiental e à necessidade de fortalecer redes capazes de enfrentar os desafios contemporâneos.
A realização do II Ciclo de Formação em Educação Popular reafirmou a parceria entre Fé e Alegria e o Cepat, que há décadas contribui para a formação crítica, a participação cidadã e o fortalecimento de movimentos sociais e educativos.
Ao longo do percurso formativo, o Cepat esteve presente na construção metodológica dos encontros, na mediação dos debates e na sistematização das reflexões desenvolvidas pelos participantes.
Durante o encerramento, André Langer, assessor do Cepat e facilitador do ciclo, destacou que o encontro final foi pensado como um momento de síntese e de colheita dos aprendizados construídos coletivamente.
“A ideia foi recolher aquilo que levamos para a vida depois desses encontros. Fazer uma colheita dos aprendizados, mas também das inquietações que permanecem e que nos desafiam a continuar caminhando”, afirmou.
Segundo André, um dos principais desafios da Educação Popular é ampliar a capacidade de leitura crítica da realidade e desenvolver novos olhares sobre os territórios e suas complexidades: “Um elemento importante da Educação Popular é perceber onde colocamos a nossa atenção. Muitas vezes passamos a enxergar questões para as quais antes não dávamos atenção. Isso também é um processo educativo”.
Ao final do encontro, André reforçou ainda a importância de transformar os conhecimentos construídos em ações concretas nos territórios e de seguir fortalecendo espaços de reflexão, pesquisa e sistematização das experiências educativas.
A parceria entre CEPAT e Fundação Fé e Alegria tem contribuído justamente para esse movimento, promovendo processos formativos que articulam teoria, prática e compromisso com a transformação social.
Um dos momentos mais significativos do encontro foi a socialização das oficinas e propostas pedagógicas elaboradas pelos participantes a partir dos conteúdos trabalhados durante o ciclo.
Segundo Paulo Roberto do Espírito Santo, analista pedagógico de Fé e Alegria, os participantes construíram, ao todos, doze planejamentos, envolvendo crianças, adolescentes, jovens, educadores e equipes técnicas de diferentes regiões do país.
As propostas abordaram temas como: Identidade e pertencimento; Ecologia integral e justiça social; Direito à cidade; Participação comunitária; Inclusão de migrantes e refugiados; Valorização das infâncias; Promoção da igualdade racial; Saberes populares e protagonismo juvenil.
Ao apresentar uma síntese dos trabalhos, Paulo destacou que as experiências demonstraram como os princípios da Educação Popular podem se materializar em práticas concretas nos territórios. “Cada oficina revelou a riqueza e a diversidade dos territórios, demonstrando como os princípios de diálogo, escuta, participação e valorização dos saberes se transformam em práticas educativas comprometidas com a transformação da realidade”, ressaltou.
Entre as experiências compartilhadas, destacou-se a oficina “Detetives do Centro”, desenvolvida no centro de Fé e Alegria Pernambuco, em Recife (PE). A proposta mobilizou crianças e adolescentes para observarem criticamente o território onde vivem, identificando desafios relacionados à mobilidade urbana, acessibilidade, descarte de resíduos e cuidado com os espaços coletivos.
Ao relatar a experiência, o assessor pedagógico do centro de Recife (PE), Jeovany Wanderley do Nascimento, destacou que a atividade buscou desenvolver uma compreensão crítica da realidade a partir das vivências das próprias crianças.
“Eles começaram a perceber que os problemas do território também dizem respeito a eles e que podem se reconhecer como sujeitos capazes de propor mudanças”, avaliou.
A experiência dialoga diretamente com a pedagogia freiriana ao partir da realidade concreta dos participantes para promover reflexão, participação e ação transformadora.
As partilhas realizadas em grupos durante o encontro reforçaram outro aspecto central da formação: a importância da escuta, do diálogo e da construção coletiva dos saberes.
Ao avaliarem o percurso formativo, diversos participantes destacaram como os encontros ampliaram a compreensão sobre a Educação Popular e fortaleceram o compromisso com práticas educativas mais críticas, inclusivas e participativas.
Para Ayla Rangel Dutra, coordenadora pedagógica do Centro de Educação Infantil Pe. José Ten Cate, em Cuiabá (MT), um dos principais aprendizados foi compreender a diversidade dos contextos em que Fé e Alegria atua.
“Embora façamos a mesma coisa, trabalhamos de formas totalmente diferentes, pois os nossos contextos pedem respostas diferentes”, disse ela, que também ressaltou a importância de desenvolver um olhar atento para as realidades locais: “Foi muito importante enxergar as miudezas, aquilo que muitas vezes passa despercebido, mas que também faz parte dos processos de transformação”.
Já a assessora pedagógica Silvia Cristina Aragão Oliveira Santos, de Montes Claros (MG), destacou que a formação fortaleceu sua compreensão sobre a responsabilidade ética da prática educativa: “Essa aproximação nos fortalece, esse vínculo nos encoraja. Foi uma construção linda, necessária e muito enriquecedora”.
A educadora Sara Regina do Carmo, do centro social de Grajaú (SP), também enfatizou que os encontros contribuíram tanto para a atuação profissional quanto para a dimensão pessoal dos educadores: “Não tem como sair deste encontro sem levar algo para o nosso trabalho e para a nossa vida”.
As falas evidenciaram que a formação não se limitou à transmissão de conteúdos, mas promoveu processos de reflexão capazes de impactar diretamente a prática cotidiana dos participantes.
Durante o encerramento, Fernanda Ariele destacou ainda a importância da ampliação do diálogo com outras obras da Rede de Justiça Socioambiental da Companhia de Jesus.
Além dos centros de Fé e Alegria, participaram do ciclo representantes do Cepat, do Centro Alternativo de Cultura (CAC), do Centro Santa Fé e do Centro de Estudos e Serviços (Ceas), fortalecendo a perspectiva de atuação em rede e de construção coletiva do conhecimento.
A coordenadora também agradeceu o trabalho da equipe de Espiritualidade, que esteve presente em todos os encontros, contribuindo para integrar fé, compromisso social e Educação Popular.
Segundo ela, todo o processo foi construído a partir dos próprios princípios da Educação Popular, valorizando o diálogo, a participação e a escuta dos participantes.
O resultado foi um percurso que fortaleceu vínculos institucionais, ampliou horizontes de reflexão e reafirmou o papel da educação como instrumento de transformação social.
Mais do que encerrar uma etapa, o encontro final do II Ciclo de Formação em Educação Popular marcou o início de novos desafios e possibilidades.
Ao longo de cinco meses, os participantes construíram aprendizados, compartilharam experiências, reconheceram desafios comuns e reafirmaram o compromisso com uma educação que nasce da realidade dos territórios e se coloca a serviço da justiça social.
Fé e Alegria do Brasil e Cepat encerram este ciclo com a convicção de que a formação permanente continua sendo um caminho fundamental para fortalecer educadores(as), lideranças comunitárias e agentes sociais comprometidos(as) com a transformação da realidade.
Porque, como observado ao longo de todo o percurso formativo, a Educação Popular continua sendo um convite permanente para aprender com o povo, caminhar com o povo e transformar a realidade junto com o povo.
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